11 de dezembro – Bazar Estiloarte 4
•quarta-feira, 8 dezembro , 2010 • Deixe um comentário(170708)
•terça-feira, 12 outubro , 2010 • 3 Comentários(210410)
•terça-feira, 22 junho , 2010 • 1 ComentárioO COLECIONADOR
João Zé nasceu sorrindo, mas a parteira, com fama de vidente na cidade, quando encarou os olhos azuis da criança logo pensou: “mais um ser diabólico que chega ao mundo”.
Na cidade, estúpida de João Zé, os moradores tinham um grande apreço por espelhos, os mais afortunados colocavam até no jardim de suas casas, gostavam de refletir a beleza de suas conquistas. Pois bem, voltando a falar de João Zé, conforme o tempo passava ele conquistava a fama de um garoto sedutor e um exímio colecionador de espelhos, de todas as formas e tamanhos, com molduras de várias cores, azul, amarelo, verde e uma pequena em especial, banhada a ouro, feita por um famoso artista da cidade, que fora presente de seus pais e, agora, servia como adorno na cabeceira de sua cama. E, assim, o jovem seguia seu caminho… Um sorriso aqui, um espelho ali. Até receber uma carta:
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Vaidópolis, 1988.
João Zé,
Acreditei que poderia ter um amigo. Como você pode fazer isso comigo? Contei para você todas as minhas confidências, cruzes! Cada passo, cada respiro. Ah! João Zé, você com a aquela conversa mansa, acreditei mesmo… E fui falando e fui deixando você entrar na minha vida. Sentia falta de um irmão. Quebrei o meu orgulho, acreditando que dessa vez valeria a pena. Nossa! Nunca imaginei que pudesse existir uma amizade assim, vai ver que é porque eu tinha sonhado, um dia, pedindo isso para o pai-do-céu. Ai, sonho demais não é, João Zé? Que besteira acreditar que unidos venceríamos o mundo inteiro.
Mas, você me traiu João Zé, você arrumou outro amigo na escola e esqueceu tudo e você falou o que não devia e você disse que já não se importava com o que eu pensasse. Que eu era um narcisista puro. Isso doeu. Vai ver que sou mesmo. Mas, agora, percebo que narcisistas somos todos nós, certo? E segredo não se tem, porque a boca sempre trai. A maldita boca sempre trai. Mas, quando contei teu segredo para minha família, todos te aceitaram mesmo assim. Eles sabiam que a tua companhia me tiraria do quarto e de dentro dos livros.
Agora, com 15 anos completos – sim, hoje é o meu aniversário – percebo o quanto era bom ficar sozinho no meu canto, estava seguro lá. Meu pai achava estranho, um garoto da minha idade: cabelos sempre escorridos, magro; ficar tanto tempo num lugar. Tão diferente dos outros meninos. Culpavam a minha atitude pela morte de minha mãe – Fase! Diziam. Eu adorava ficar sozinho com os meus fantasmas, era minha fuga até te conhecer.
E por conta do teu desprezo, não peguei mais na mão de ninguém, desliguei o rádio, pintei o espelho do nosso jardim com tinta preta, voltei a desenhar seres imaginários no ar, a conversar com as nuvens. Não liguei na madrugada (escondido do meu pai) para falar sobre literatura com mais ninguém. Como viajávamos neste assunto, quantos livros lidos juntos, ideias, discussões, finalizadas sempre com o sorriso certo de que aprendíamos alguma coisa.
Vou te confidenciar uma última história, meu amigo. Sonhei, na noite passada, com a minha mãe, ela disse: nunca delegue todo sentimento de amizade para uma pessoa só, divida com os outros. Ela estava de roupas novas, e falou que é tempo de mudanças, novamente. Ai, não tenho mais força para mudanças, já fiz tantas. Estou cansado sabe.
No começo achei que fosse ciúme do seu novo amigo, mas não era. Você não apareceu mais, não quis mais saber das minhas histórias tristes e de euforias. Os livros viraram pó na estante da nossa amizade. Ai, João Zé, você riu hein? Ficou feliz com o dito sentimento meu. E eu acreditava em você, minha nossa! Eu acreditava.
Tarefa pronta. Não confio nem na minha própria sombra. Você foi o último, João Zé.
Entre pulsos e impulsos, fico com o silêncio. Do meu quarto.
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Silenciosamente, João Zé amassa a carta, solta um riso irônico e resmunga: “mais um com o espelho quebrado”.
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(210410)
Nane Pereira
A VILA
•segunda-feira, 21 junho , 2010 • Deixe um comentárioOlá pessoas que sempre me acompanham por aqui! Agradeço as constantes visitas!
O livro Particularidades, como sempre digo, foi um batismo, que me trouxe alegrias e muitas oportunidades. Aprendi muito, principalmente, a enfrentar medos que eu nem sabia que existiam dentro de mim. E agradeço o carinho de todos.
Ando por aqui e ali, ensaiando o segundo livro, A VILA. Acho engraçado que o título sempre vem primeiro, com o Particularidades também foi assim, em 1996.
A VILA, pelo que tenho sentido, será uma continuação do crescimento da personagem em matéria de escrita e experiências, numa visão não só do que acontece no seu mundo, mas, principalmente, no que acontece fora dele. E os ensaios na prosa poética começam a aparecer, o primeiro chama-se “O colecionador” e logo será postado por aqui.
De vez em quando alguém me pergunta sobre quando será lançado o segundo livro e a resposta é: eu não sei! Tenho muito o que melhorar até lá.
Abraço apertado a vocês e um inverno repleto das melhores brisas da estação!
Nane
E-mail : nane0307@gmail.com
De 07 a 12 de junho: VI Semana dos Namorados da Biblioteca Municipal Dr. Fritz Müller .
•quarta-feira, 2 junho , 2010 • Deixe um comentário12/05 às 19h30 – Particularidades no Grão Espaço Cultural + Exposição Criadores e Criaturas + Entre Tulipas e Girassóis
•segunda-feira, 10 maio , 2010 • Deixe um comentárioA Fundação Cultural de Timbó, através da Casa do Poeta Lindolf Bell, convida Vossa Senhoria e Família para o coquetel de abertura da Exposição Criadores e Criaturas. A abertura da Exposição será a partir das 19h 30min do dia 12 de Maio de 2010 (quarta-feira). Nesta exposição, os artistas de Balneário Camboriú, Paloma, Joe, Kestrel e Eliciane dão vida às suas obras, com trabalhos ricos em beleza e detalhes. Além da exposição, haverá o lançamento – em Timbó – da obra Particularidades da escritora Nane Pereira, de Blumenau e a exibição do curta metragem Entre Tulipas e Girassois, produzido pela produtora AW Vídeo, cujo tema é um diálogo fictício entre os poetas catarinenses Cruz e Souza e Lindolf Bell. O grupo Uni duni tê das Oficinas de Contação, Leitura e Escrita de Histórias da Fundação Cultural de Timbó abrilhantará a noite com declamações dos poemas do livro Particularidades.
A entrada é franca e a exposição ficará aberta à visitação até o dia 12 de Junho, durante os dias e horários normais de atendimento do museu: Terça-Feira a Domingo, das 8h 30min às 11h 30min e das 13h 30min às 17h 30min. A Casa do Poeta Lindolf Bell fica na Rua Quintino Bocaiúva, nº 902, Bairro Quintino – Timbó/ SC.
Mais informações através do telefone (47) 3399-2074 ou pelo e-mail graoeventos@lindolfbell.com.br Prestigie!
O quê? Abertura da Exposição Criadores e Criaturas Quando? 12 de Maio de 2010 às 19h 30min Onde? Grão Espaço Cultural – Casa do Poeta Lindolf Bell Rua Quintino Bocaiúva, nº 902, Quintino, Timbó/ SC
Particularidades de Nane Pereira
Ilustrações: Bruno Bachmann
Revisão Ortográfica: Alfredo Scottini
R$: 19,90
O Poder da Expressão em Imagens Poéticas- Por Erika Phillips Salinas
•quarta-feira, 5 maio , 2010 • 2 ComentáriosO PODER DA EXPRESSÃO EM IMAGENS POÉTICAS
Por Erika Phillips Salinas
O primeiro livro de poemas de Nane Pereira, Particularidades, é breve em quantidade, mas é grande e profundo no conteúdo. Os poemas tem a singularidade de ser locais e universais, ao mesmo tempo, pelos conflitos humanos que ela canta: morte, solidão, a verdade verdadeira… Será que existe? Nane canta ao Ser e a Nada em: PROTESTO, O GRITO e em IRA. A procura da verdade íntima em DESABAFO. IRA é um grito de liberdade apresentada não como um caminho sem saída porque ao final diz: todos querem sentir… entender o motivo de tantas flores. Aqui voltamos a acreditar na beleza da existência da mulher e do homem na terra.
A critica à maleabilidade da mente humana, o tema das ideologias introduzidas ao ser humano desde crianças, aproveitando que não temos como nos defender e tragamos prejuízos sem mastigar, pensamentos que mudam a existência humana até não saber quem realmente somos em nosso agir cotidiano. Onde estou? Como foi que me conduziram ao ponto aonde cheguei sem tê-lo escolhido eu mesmo? O sentimento de ter vivido uma vida errada sem recuperação possível em LUA CRESCENTE LUA MINGUANTE e em ACASO.
Nesta breve crítica vou me deter em alguns poemas lançados à sorte, citando versos para destacar o sentir de Nane:
ACASO
À vezes, tentamos
fugir de nosso destino,
até que ele nos encontra
e nos leva pela mão.
A impossibilidade de participar, de ser criativo e de sair do caminho predeterminado pela sociedade imperante. Perda da essência do individuo.
NOITE, poema “retrô” com volta ao soneto, mais mantendo o modernismo do início do livro. O último verso que fecha o poema é surpreendente pelo ritmo da linguagem:
Velha roupa,
Pés descalços,
Braços pendidos.
Caiu no poço,
Sono profundo,
Cores sem sentido,
Uma viagem de retorno aos seus antigos fantasmas.
O GRITO é uma explosão da alma. É um poema isolado, se aparta do tom dos outros. Parece o solilóquio dum drama, por isso é que os lugares comuns estão bem usados. Está na mesma altura dos outros poemas que são mais metafóricos, contudo é particularmente belo.
Ah! não me venhas…
Quem és tu ó ser mortal…
Chega
Deixa-me em paz,
Por favor!
CINZA CEGO, este poema dá para uma canção pelo ritmo, compás e comprimento das palavras. É um flash de tristeza frente a frente a si mesmo.
Triste espelho esse meu
repete tudo que já sei de cor
vomita excessos.
FERRUGEM, poema profundo. Dizer tanto em quatro versos é arte. Aqui nem sobra nem falta nada; é a comunicação em poucas palavras.
Essa cor meu bem
Vem das palavras
Que tu não disseste
E que eu acreditei.
HILDA ROSA, pensamento poético especial, acrescentado pelo malabarismo da linguagem no jogo de palavras musicais.
A poesia sossega
O desassossegado
Que habita em mim.
PRECE, poema ecológico. Destaca a importância da experiência do passado comparada com um presente descartável, a destruição do planeta e a solidão eterna.
O ancião já dizia:
-Não abuse do mundo pois ele abusará de você.
Dito e feito.
Abusei do mundo e ele abusou de mim
Tornamo-nos solitários.
CONFLITO, a solidão, a incapacidade de ser EU e, a vida breve. A morte, sempre ameaçando interromper os sonhos que tínhamos pensado atingir com toda a alma.
Tempo turvo,
folhas que morreram de sede.
EM CIMA DO MURO, o medo à liberdade que sempre está rondando aos seres humanos, o medo a viver como autores de nossa própria existência.
Enquanto
não
tomo
partido
Os
partidos
me
tomam.
ENCONTRO é um brinde com a morte:
Digam à morte, meninos de asas negras,
que me aguarde mais um pouco
e beberemos juntos
o melhor dos vinhos.
Este livro é uma exposição de hermetismo da alma, que se desabrocha como uma flor frente ao mundo materialista e consumista, onde o lucro tem passado a representar ao espírito e à sensibilidade e aonde a pessoa vale mais pelos objetos materiais que possui.
As fantasias feitas em imagens finas como a névoa, sempre em suspenso, são que conformam a qualidades dos poemas de Nane. A metáfora sutil e a criação verbal que decorrem na vida integral do homem são o que dão originalidade aos poemas, em uma atmosfera poética e genuína.
Erika Phillips Salinas
Poeta, contista e ensaísta chilena.
Professora de Literatura da Universidad de Chile
Eu e Erika Phillips, na sua visita ao Brasil, em Florianópolis, janeiro de 2010.
Poética e evasão em Particularidades – por Tiago Ribeiro
•quarta-feira, 5 maio , 2010 • Deixe um comentárioO jornalista e mestrando em Educação,Tiago Ribeiro, resenha o livro de poemas “Particularidades”, obra de estreia da também jornalista Nane Pereira.
Poética e evasão em Particularidades
Tiago Ribeiro
Jornalista e Mestrando em Educação na FURB
“em poesia tudo é relativo; a poesia não existe em si: será uma relação entre o mundo interior do poeta, com a sua sensibilidade, a sua cultura, as suas vivências, e o mundo interior daquele que o lê.”
(Manuel Bandeira)
São três os anos de partida que dividem cada capítulo em Particularidades, o primeiro livro de Nane Pereira: Particularidades I (1996); Particularidades II (2007) e Particularidades Cores (2009). Ao deixar todos poemas datados, a autora não me parece ingênua a fim de que os números sejam apenas um determinante temporal em sua poesia. Se abrirmos os olhos sobre a ordem cronológica dos poemas, lê-se um desaparecer sutil de interrogações e reticências onde seus pontos finais assumem caráter dominante no desfecho dos poemas. Este detalhe me ajudará a chegar, relativamente como disse Bandeira, a abordagem, ao que me parece, sobre uma maturidade crescente na poética de Nane Pereira a partir deste seu primeiro livro.
A esta altura, já poderiam se perguntar os leitores: o que quer este cara ao falar dos três pontinhos que tanto os usou o mestre Mario Quintana? Se o gaúcho de Alegrete dizia que “as reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho”, Nane não parece diferente. Este detalhe nos ajuda a compreender uma certa mudança de ritmo nos poemas que, no decorrer do livro, vão se distanciando do tom da incerteza, de interrogações e pensamentos flutuantes, até a sensibilidade deste leitor que aqui escreve. Do primeiro capítulo, reproduzo o poema Atrocidade onde encontramos, além da singular relação da autora com o seu ambiente, a exposição de juízos,feia e melhor; e estados; euforia, vazio e vaidade que nos ajudam a exemplificar a incidência de uma racionalidade decisiva que se manifesta de modo mais geral em sua poesia a partir de então:
Os ratos continuam roendo minha seda
Meus lençóis, meus chinelos de algodão
E as traças fazem festa com meus quadros
Com minhas palavras, meus livros ao chão.
O barulho do ventilador é música feia.
Deitada neste colchão corroída pela vaidade
O silêncio sente apenas um corpo dormente
(imóvel
Sente apenas o vazio que você deixou
E o gosto amargo do melhor sentimento.
Volte euforia!
Pois esse teu logo
Tem a distância muito longa.
(31.12.06)
Neste poema, temos o que me parece uma atitude mais consciente dofazer literário da autora, de modo em que o escrever não é mais uma tentativa de encontrar repostas para suas neuroses, como diria Deleuze, mas, como tento expor, um solidário fazer ao leitor buscando expressar sua vivência a partir da arte. Ainda em consideração ao poemaAtrocidade, aponto-o como referência à dolorosa visão sobre a existência que a autora frequentemente mantém em sua obra. Mas uma visão que pode inocentemente ficar desapercebida aos leitores mais aligeirados, uma vez que, por meio de metáforas, a poeta empresta sua complexidade vivida à simplicidade dos objetos da natureza onde suscita a sua poesia.
Por este aspecto, é aceitável que evidenciemos a relação constante que a poeta mantém com seres exteriores a si, na natureza, humanizando os objetos e fazendo-os pertencer ao seu campo poético. Mas, falar em campo poético não significa enquadrar a poeta dentro de uma gaveta onde possam ser apontados seus limites. Significa, sim, afirmar o conjunto de objetos que acendem a sua poesia; a substância que, por seu aspecto de estranheza e novidade em frente aos nossos olhos, nos coloca em choque contra a banalidade no modo em que vivenciamos o mundo. Com isso, fujo de uma avaliação estética e teórica que, como já disse o poeta Gullar em entrevista ao escritor Ivan Junqueira: “não me importa se o poema é ultramoderno, moderno, pós-moderno ou submoderno. Nenhum poema é bom se não tiver algo de novo dentro dele”.
A novidade que Nane Pereira nos traz em Particularidades está no modo em que as particularidades da autora se confundem e buscam relações nos elementos exteriores a si. É por descuido que possam surgir comentários de Nane Pereira como poeta dos gatos, dos grilos, das formigas ou de quaisquer bichos à sombra de um jardim. Como fenômeno da linguagem, é possível dizer que a poesia, inevitavelmente, é dependente de disposições de espírito muito antes, sequer, de estar sujeita à dependência sobre o espaço ou objeto em que é produzida. A partir deste apontamento, tomando como base o espectro doloroso que faz parte da obra, há uma “curiosa fuga” que fundamenta o que denovidade a obra nos traz. Poemas como Confortavelmente em Paz, Acônito,O Tombo, Conflito e, ufa!, Lantana demonstram um laço comum estabelecido por meio de angústias que culminam em evasões. Evasões, digo, para a natureza. Estes poemas se encerram sugerindo a fuga da autora para além do seu espaço, uma vez que parece procurar no vento, nas estrelas ou nas folhas um amparo onde, ao que me sugere, mora a contundência que me permite chamar Nane Pereira de poeta.
Acônito
Esse agosto de desgosto nada teve.
Só essa politicagem que me enfiam de goela abaixo,
só essa chuva de dedos que apontam um cabelo sem cor,
só essa camisa furada, rasgada de flores mortas.
De gosto
só o sorriso tosco, torto, de uma noite enluarada.
(11.08.08)
Fonte: Sarau Eletrônico – FURB : http://migre.me/Cdyy
OS DONS DAS FADAS – Baudelaire
•quinta-feira, 22 abril , 2010 • 3 ComentáriosOlá, conforme o tempo vai passando e na leitura de alguns livros, postarei aqui, de vez em quando, alguns textos, contos, poemas que me chamaram a atenção…
Esse texto é de um livro que gosto muito, Pequenos Poemas em Prosa de Baudelaire, e que, durante um tempo foi o meu livro de cabeceira (risos), agora, repleto de cópias e textos da faculdade. Faz parte! Até breve.
Com carinho, Nane.
OS DONS DAS FADAS
Era um grande encontro de fadas para proceder à distribuição de dons entre todos os recém-nascidos, chegados à vida, nas últimas vinte e quatro horas.
Todas essas antigas e caprichosas Irmãs do Destino, todas essas mães bizarras da alegria e da dor eram bem diferentes: umas tinham o ar sombrio e ranzinza, outras um ar caçoador e malicioso; umas jovens que sempre foram jovens e outras velhas que sempre foram velhas.
Todos os pais que tinham fé nas fadas vieram, trazendo, cada um deles, seu recém-nascido nos braços.
Os Dons, as Faculdades, as Boas Sortes, as Circunstâncias invencíveis estavam acumuladas ao lado do tribunal, sobre o estrado, para uma distribuição de prêmios. O que havia ali de particular é que os Dons não eram a recompensa de um esforço mas, pelo contrario, uma graça concedida àquele que ainda não vivera e que poderia determinar seu destino e tornar-se tanto a fonte de sua infelicidade quanto a de sua felicidade.
As pobres Fadas estavam muito ocupadas, pois a multidão de solicitantes era grande, e o mundo intermediário, colocado entre o homem e Deus, é tão submetido quanto nós à terrível lei do Tempo e de sua infinita posterioridade: os Dias, as Horas, os Minutos e os Segundos.
Na verdade, elas encontravam-se tão atordoadas quanto os ministros em dias de audiência ou os empregados do Montepio (penhor) quando um feriado nacional autorizava os resgates gratuitos de empenhos. Creio, mesmo, que elas olhavam de tempo em tempo os ponteiros do relógio com tanta impaciência quanto os juízes humanos que, trabalhando desde manha cedo, não podem se impedir de sonhar com o jantar junto à família, e com seus caros chinelos. Se, na justiça sobrenatural, há um pouco de precipitação e de acaso, não nos espantemos que assim seja, também, na justiça humana, algumas vezes. Nós seríamos, nós mesmos, nesses casos, injustos juízes.
Também foram cometidos alguns enganos nesse dia, que poderiam ser considerados bizarros, se a prudência, mais do que o capricho, fosse um caráter distintivo, eterno das Fadas.
Assim, o poder de atrair magneticamente uma fortuna foi concedido ao herdeiro único de uma família muita rica que, não sendo dotado de qualquer senso de caridade, nem de qualquer cobiça por todos os bens visíveis da vida, deveria se achar, mais tarde, prodigiosamente embaraçado com seus milhões.
Assim foram dados o Amor ao Belo e o Poder Poético ao filho de um pobre sombrio, pedreiro por profissão, que não podia, de nenhum modo, ajudar as capacidades nem suavizar as necessidades de sua deplorável progenitura.
Esqueci de lhes dizer que a distribuição, nesses casos solenes, não tem apelação, e que nenhum dom pode ser recusado.
Todas as Fadas se levantaram, crendo concluídas suas cansativas obrigações porque não havia mais qualquer presente, nem generosidade a distribuir para toda aquela massa humana ignara, quando um homem de bem, um pobre pequeno comerciante, eu creio, levantou-se, e, agarrando a roupa de vapores multicores da Fada que estava mais próxima e a seu alcance, gritou:
“Ei! Minha senhora, esqueceu-se de nós?! Há ainda o meu pequeno. Não aceito ter vindo aqui por nada!”
A Fada poderia ter ficado embaraçada, porque nada havia restado. Entretanto, ela se lembrou, a tempo, de uma lei bem conhecida conquanto raramente aplicada no mundo sobrenatural, habitado pode deidades impalpáveis, amigas dos homens e frequentemente constrangidas em se adaptar às paixões deles, na qualidade de Fadas, Gnomos, Salamandras, Sílfides, Silfos, Nixos, Ondins e Ondinas: “Desejo falar sobre a lei que concede às Fadas, em casos semelhantes a este, que dizer, o esgotamento dos lotes de presentes, o poder de dar, conceder ainda mais um, suplementar e extraordinário, desde que ela tenha suficiente imaginação para criá-lo imediatamente.”
Então a boa Fada respondeu com arrogância, digna de seu cargo: “Eu dou ao teu filho… eu lhe dou… o dom de agradar!”
“Mas agradar como? Agradar?… Agradar por quê?”, perguntou obstinadamente o comerciante, que era, sem dúvida, um desses questionadores tão comuns, incapazes de se elevarem e alcançarem a lógica do Absurdo!
“Por quê? Porque sim!”, replicou a Fada furiosa, virando-lhe as costas; e, juntando-se ao cortejo de suas companheiras, lhes dizia: “O que vocês acham desse pequeno francês vaidoso que quer saber tudo e que tendo obtido para o filho o melhor dos prêmios ousa inda questionar e discutir o indiscutível?”
Do livro “Pequenos Poemas em Prosa” de Charles Baudelaire (P. 113-115), Ed. Record.










