Sobre Jornalismo e Literatura

“É também no signo da relação que o jornalista demostra lidar ou não com os fundamentos de uma pauta bem desenvolvida; observação rica e complexa; […] domínio da entrevista como ferramenta humanizadora; competência e criatividade na articulação das informações captadas e selecionadas. Neste concentrado processo, comparecem a literatura e todas as formas de artes. Só um jornalista exposto à sensibilidade, racionalidade e ações criativas precípuas ao artista, poderá, ele próprio, se aperfeicoar para conviver mais complexamente com o real imediato. A literatura, ou a palavra-revelação por excelência, lhe oferece, entre as demais artes, um bom arsenal de estímulos e de percepções. A percepção, observação e lida cotidiana se enriquecem, amplia-se a cosmovisão, assim como se ampliam as narrativas. Acima de tudo, a literatura ajuda o jornalismo a que este se torne mais humano.”

Cremilda Medina: Povo e Personagem. Ed. Ulbra, p. 215.

Anúncios
Sobre Jornalismo e Literatura

Desassossego


O tempo das leituras ficou curto. Também curto ficou o tempo para as postagens, mas, Fernando Pessoa insiste em pousar em minhas mãos. Coração. Antes de cair no sono. Pessoa. Parceiro de caminhada. Compartilho:

“Primeiro é um som que faz um outro som, no côncavo noturno das coisas. Depois é um uivo vago, acompanhado pelo oscilar rasco das tabuletas da rua. Depois, ainda, há um alto de súbito na voz lavada do espaço, e tudo estremece, e não oscila, e há silêncio no medo disto tudo como um medo surdo que vê outro medo mudo passar.

Depois não há mais nada senão o vento –  só o vento, e reparo com sono que as portas estremecem presas e as janelas dão som de vidro que resiste.”

Fernando Pessoa
Livro do Desassossego, ‘281’.
Ed. Companhia das Letras, p. 275.

Desassossego

Com meus olhos de cão

Das leituras da semaninha de folga. Livro: Por que ler Hilda Hilst, org. Alcir Pécora, p. 74. Compartilho com vocês ;)

“Com meus olhos de cão paro diante do mar. Trêmulo e doente. Arcado, magro, farejo um peixe entre madeiras. Espinha. Cauda. Olho o mar mas não lhe sei o nome. Fico parado em pé, torto, e o que sinto também não tem nome. Sinto meu corpo de cão. Não sei o mundo nem o mar a minha frente. Deito-me porque o meu corpo de cão ordena. Há um latido na minha garganta, um urro manso. Tento expulsá-lo mas homem-cão sei que estou morrendo e que jamais serei ouvido. Agora sou espírito. Estou livre e sobrevoo meu ser de miséria, meu abandono, o nada que me coube e que me fiz na Terra. Estou subindo, úmido de névoa.”

Hilda Hilst

Com meus olhos de cão

As almas aprisionadas

Vez por outra, gosto de parar em frente à pequena estante e escolher um livro. De lá retirar alguma leitura – texto, página – escolhida a esmo. Hoje, reli um dos meus trechos favoritos do livro Contos Filosóficos Do Mundo Inteiro, de Jean-Claude Carrière, Ediouro, p.54. Compartilho com vocês ;)

As almas aprisionadas

Um dia, um grupo de aborígines australianos caminhava numa paisagem árida, acompanhada por um etnólogo. Este, que anotava cuidadosamente todos os seus feitos e gestos, observou que de tempos em tempos o grupo, composto de homens e mulheres, parava por um momento mais ou menos longo. Eles não paravam nem para comer, nem para olhar alguma coisa, nem para sentar, nem para repousar. Eles paravam, simplesmente.

Depois de duas ou três paradas, o etnólogo lhes perguntou os motivos. É muito simples, eles responderam, esperamos por nossas almas.

O etnólogo pediu algumas explicações complementares. Ele compreendeu, então, que, de tempos em tempos, as almas param pelo caminho para olhar, sentir, ou escutar alguma coisa que escapou dos seus corpos.

Esses motivos para parar, mesmo permanecendo secretos, podem ser muito fortes, muito sedutores. É porque, quando os corpos continuavam a andar, algumas vezes as almas paravam durante uma hora.

Assim, é preciso, em seguida, esperá-las.

As almas aprisionadas

Opinião: O Diário de Genet, apresentado nesta terça-feira no Fitub em Blumenau

O palco liberta

Noite de terça-feira, após o dia alvoroçado de trabalho, uma ligação: teatro hoje? Sim! Teatro hoje! Nada como ter um festival internacional de teatro acontecendo na cidade para aguçar ainda mais a sede por arte. A doce válvula de escape. No palco do pequeno Auditório Willy Sievert, do Teatro Carlos Gomes, via-se: meia dúzia de lâmpadas, algumas folhas de papel, e muito, muito talento.

Dois atores em perfeita harmonia deram um refinado espetáculo de interpretação. O Diário de Genet, com texto e direção de Djalma Thürler, produção do Ateliê Voador Companhia e Teatro (BA), é um mergulho no pensamento político do escritor, poeta e dramaturgo francês, Jean Genet (1910-1986). Com um início despretensioso e uma linguagem contemporaneamente afiada ‘cheio de amor, cheio de terra’, a peça gira em torno da história, dos desejos transgressores, da não escolha (infância), da marginalidade como identidade e das paixões de Genet.

A interpretação intimista faz do público confidente. A não linearidade dos textos, a poesia nos pequenos detalhes da iluminação e a entrega dos atores faz-nos pensar e cutucar com as unhas as crostas de hipocrisia que insistem em permanecer em nós… Nada como ter um festival internacional de teatro acontecendo na cidade.

Opinião no Santa: http://jornaldesantacatarina.clicrbs.com.br/sc/lazer-e-cultura/noticia/2014/07/leitora-comenta-espetaculo-o-diario-de-genet-apresentado-nesta-terca-feira-no-fitub-em-blumenau-4558246.html

Opinião: O Diário de Genet, apresentado nesta terça-feira no Fitub em Blumenau

Opinião: Abertura do 27º Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau

Temos algo em comum

Julho é o mês em que os apaixonados por teatro saem da toca com mais frequência. O Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau é um momento de confraternização, de expectativa às novas peças, de reencontro. De arte, de rever velhas e de fazer novas amizades. Afins. Momento em que os corredores do Teatro Carlos Gomes entoam de forma mais intensa frases como: ‘temos algo em comum’. De renovação de plateia e de flerte com a antiga. Sorrisos.

A peça de abertura, ‘Os Gigantes da Montanha’, do grupo Grupo Galpão (MG), com direção de Gabriel Villela e texto de Luigi Pirandello, trouxe uma reflexão bacana, o pragmatismo de quem vive a vida e dos que vivem a arte. Escolhas. A visita de uma companhia teatral decadente a uma vila mágica povoada por fantasmas. Beleza pura. Durante o espetáculo: canções, reflexões, alguma graça. Discussão acerca do valor do teatro e a capacidade de comunicação com os tempos atuais.

Moderníssimo? Não sei. Vezes por outra me pego questionando que de ‘modernos’ temos pouco. Texto interessante, figurino e fotografia de encher os olhos. Cenário perfeito. Os vários elementos usados, a beleza das técnicas circenses, a mesclas das canções populares. Mas, mesmo com todas as qualidades de um grande espetáculo, a peça não tocou o coração. Não senti e nem me tirou da zona de conforto. Encantou, sim, os olhos. Apenas. A melhorar: atraso no espetáculo, ou o protocolo de abertura estava adiantado, ar-condicionado geladíssimo, que pegou muitos desprevenidos, e algumas falhas no áudio e na iluminação deixaram a desejar.

Opinião no Santa: http://jornaldesantacatarina.clicrbs.com.br/sc/lazer-e-cultura/noticia/2014/07/leitores-comentam-o-espetaculo-de-abertura-do-27-fitub-em-blumenau-4554587.html

Opinião: Abertura do 27º Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau

Mandinga de vó

O povo brasileiro é criativo mesmo. É comum ouvir isso de algum transeunte, ou de algum visitante de fora do país. O brasileiro sempre carrega no bolso alguma novidade, alguma mandinga, receita para felicidade, para atrair amor, curar dor de barriga, de calcanhar, para tudo se tem um chá, se tem uma fé, para tudo dá-se um jeito. O brasileiro é também um povo apaixonado, normalmente os criativos são, e namorador. Os solteiros, separados, divorciados e afins vivem às esquinas, nos bares e cafés, nos risos, sorrisos e olhares, na lúdica tentativa de encontrar o amor perfeito. Arrebatador.

Certo dia, fui acompanhar minha mãe até o terminal de ônibus perto de casa e, no caminho, enquanto conversávamos e ríamos (porque a visita dela sempre me traz alegria e boas risadas), ela viu passar, do outro lado da rua, uma senhora. Logo fechou a cara e resmungou: “safada!”. Perguntei o que foi que a senhora, bem apessoada e elegante, parecia-me, tinha feito a ela. “Nada”, disse sem me convencer. “Como nada?”, então ela começou a discorrer sobre o assunto. Disse que nos encontros, nos bailes da terceira idade, as outras senhoras não gostavam dela, pois ela atraía todos os homens, e as outras, assim como minha mãe, ficavam “chupando o dedo”, sem ninguém.

Disse que certa vez a encontrou no terminal de ônibus e depois de muita conversa descobriu seu segredo. “Segredo?”, perguntei. “Sim, segredo!”, disse com o tom de voz mais baixo do que o normal. Para atrair os homens a invejada senhora, antes de sair de casa, passava mel no bico dos seios. “Mel onde?” E dei uma gargalhada surreal assustando inclusive outras pessoas que passavam na rua. Sim, a distinta senhora passava mel e aprendeu a mandinga com a vó dela. Confidenciou isso à minha mãe num momento de rara intimidade, naquela conversa despretensiosa no terminal.

Imaginativa, logo comecei a visualizar a velhinha e seu ritual. Deusducéu, mas será que o mel não colava na roupa? Outro acesso de riso.

Depois de me despedir da minha mãe, voltei pensativa, calada. Chegando à minha morada fui direto à cozinha conferir se ainda havia mel em casa. Ah, o brasileiro, povo tão criativo e cativo nas resoluções do coração.

Mandinga de vó